quarta-feira, 29 de abril de 2009

INTRODUÇÃO ao TOPÓNIMO de CASTELO CERNADO




Meus amigos o sempre carismático Luís Vieira, mandou-me este texto como comentário mas eu não resisto a publica-lo como artigo muito importante sobre as origens da nossa terra:

Sobre o blogue onde nos encontramos, ele, no conjunto da sua personalidade, a ter, a ter no seu corpo e organismo, no espaço seu, o nome, a denominação e a identidade de "Castelo Cernado", uma informação e esclarecimento cedida e gentilmente, pelo Prof. Batalha Gouveia, da "Sociedade de Língua Portuguesa", ao jornal "Gazeta do Tejo", a 29 de Abril de 2000 sobre o significado e interpretação psicológica e literária da palavra e termo "Castelo Cernado".(1)
Quero começar por dizer e sinto a vontade e a intenção, de mencionar e escrever que a palavra antigamente se começava a escrever por um (S).
Sinto a responsabilidade de informar, a vossa consideração e atenção eu chamo, a obra, a abordagem do tema, ela não está completa, é apenas a primeira pedra que se coloca.

(1) " CASTELO CERNADO: O adjectivo CERNADO tem origem no latim Circinus, nome dado a um vento rodopiante que sopra no noroeste da Península Itálica.
Daquele Circinus derivam o francês provençal e o português cerne com as acepções de "coisa redonda" ou do formato "circular".
Assim, para nomear aquilo que entre nós se dá o nome de "olheiras", aqueles círculos que emolduram os olhos, o francês emprega a frase "avoir les yeux cérnes". O termo "cerne" alargou o seu âmbito semântico aos terrenos vedados com muros ou sebes, terrenos esses conhecidos pelos nomes de "cerca", "tapada" ou "couto".
Surgem assim os topónimos CERNADA, CERNACHE, etc. Logo, o lugar de CASTELO CERNADO era, originalmente, um castelo rodeado por uma área coutada. "

Que maravilhoso... Maravilhoso é uma maravilha as palavras do Prof., e elas não deixam de ser fortes, quase a verdade é conseguida.
Queria eu dizer "bingo", "em cheio", "no centro", mas eu não posso com muita pena minha.
As palavras do Prof. Batalha Gouveia, elas confirmam, elas são confirmadas pelo Padre Luís Cardoso, no seu Dicionário Corográfico..."era tudo propriedades e casais" em 177(?).
O engraçado do tema, esta abordagem sobre o tema, o referido Padre, escreve Sarnado e não S(C)ernado.
Ficando por aqui outras palavras me apareceram pela frente......
E CASTELO(?), o vosso, onde fica e está?
Se o nome da vossa terra tem castelo, tem que ter um castelo.
Em " As Grandes Vias da Lusitânia: O Itinerário de Antonino ", Mário de Saa, ele diz, a vossa terra, nunca teve castelo (...), que castelo é por hipérbole.
Hipérbole, significa, "figura de estilo que consiste em engrandecer ou diminuir exageradamente a verdade das coisas".
Como fica?
Que querer chamar Castelo a um Castro, a dúvida em minha ignorância sempre fica e sempre cito, "Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses - General João de Almeida - 1948" :

" No cimo do outeiro, cota de 294 m., em que está edificada a antiga povoação de Castelo Sarnado, (aqui o autor também chama a vossa terra Sarnado - nota minha) situada a 3 km. da margem esquerda da ribeira da Cabeça Cimeira, na povoação da Comenda, a 4,2 km. da sua confluência com a ribeira de Braça e a 14,5 km. a sudeste da vila de Gavião, encontram-se ainda vestígios de uma fortaleza.
(...), é de presumir que na sua origem tivesse consistido num castro lusitano da época do calcolítico. (...). "

Em vossas mãos eu deixo e fica entregue...

O´Luis

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Os Casamentos de Antigamente





Começamos a semana com mais uma tradição perdida.



A CORRIDA DO BOLO - MOMENTO ENTUSIÁSTICO NAS ANTIGAS FESTAS MATRIMONIAIS DA NOSSA TERRA

A corrida do bolo era um dos pontos altos das festas de casamento outrora realizadas em Castelo Cernado. Tradição bonita e divertida, mas que, como tantas outras, só perdura, hoje, na memória dos comendenses que têm mais de 50 anos de idade.

Quero referir (sem entrar em detalhes sobre o casório propriamente dito, até porque isso pode constituir tema para uma outra crónica) que os casamentos eram –até finais dos anos 50- bem diferentes dos actuais. As pessoas deslocavam-se a pé da casa dos noivos para a igreja, onde iria decorrer o ritual religioso, e, depois dessa cerimónia, iam também a pé da igreja para o local onde seria servida a primeira refeição de um ciclo festivo, que podia durar dois ou três dias.

Era, pois, no decorrer de um desses percursos pedestres –o de regresso da igreja, onde se havia celebrado a boda- que se procedia à corrida do bolo. Ou melhor, às corridas do bolo, visto essa prova de velocidade estar aberta a todos aqueles que manifestassem a vontade de nela participar. Bastando para tanto terem um adversário que lhes aceitasse o repto.

Nessa ocasião, o cortejo abria alas, formando duas longas filas de convidados, deixando entre estes um espaço suficientemente largo para que os corredores se não sentissem estorvados nos seus movimentos. Ao fundo, diríamos na meta, colocava-se uma senhora ou uma menina (escolhida entre as convidadas) que exibia uma bandeja com o prémio em disputa, que era, invariavelmente, um apetitoso bolo de massa, guloseima tradicional das nossas festas de casamento. E dava-se então início à corrida, na qual se afrontavam apenas dois homens. Embora se tenha visto, por vezes, disputas entre duas senhoras, já que nada se opunha à sua participação no certame.

Ao sinal de partida , os dois participantes arrancavam a toda a velocidade que o físico lhes consentia, na ânsia de atingir a meta -e o almejado bolo- antes do adversário do momento. Que era, geralmente, um amigo ou até um familiar. Era uso que, no final da disputa, o vencedor manifestasse o seu fair play e dividisse o tal bolo de massa com o participante derrotado. Estas corridas desenrolavam-se no meio de generalizada gritaria e de muitos dixotes, para entusiasmar ou espicaçar a malta. Aconteciam, por vezes quedas aparatosas, que em vez de indisporem os actores das ditas, vinham, pelo contrário, animar ainda mais a festa e aumentar a algazarra.

Depois destes momentos de grande agitação, os noivos colocavam-se, de novo, à frente do cortejo, seguidos dos respectivos padrinhos e demais convidados, e lá seguiam para o almoço. Para irem tratar da saúde (passe a expressão) às sopas de sarapatel, ao arroz de maranhos, ao borrego guizado, ao arroz doce, que eram pitéus certos e apetecidos nas bodas daquele tempo. E estou a falar, daquelas festas de casamento que se realizaram até finais dos anos 50, inícios da década seguinte.

Hoje tudo isso acabou. Agora privilegiam-se festas mais snobs, mais chiques (será que o são ?), com banquetes pomposos servidos em restaurantes da moda, gastando-se verdadeiras fortunas em festas que, por vezes e infelizmente, até celebram casamentos efémeros. Enfim, ocorre-me todo este palavreado para vos dizer que tenho saudades dos casamentos de outrora, com corridas do bolo, com sopas de sarapatel e com casais que se amavam, que se respeitavam, que cooperavam e que... ainda duram.


Manuel Monteiro Silva

domingo, 26 de abril de 2009

O 25 Abril na Comenda






Na Comenda o 25 de Abril foi comemorado com a realização de algumas iniciativas de carácter popular apoiadas pela Junta de Freguesia de Comenda, tais como, Btt, jogos de chinquilho, jogo do belho, matraquilhos, etc.
todas estas iniciativas foram realizadas dentro do terreno da sede da Associação Desportiva Ifal Comenda.
No fim foram entregues prémios aos vencedores, o que se seguiu um lanche para todos os presentes constituído por porco assado no espeto, oferecido também pela Junta de Freguesia

O 25 de Abril na sede do Concelho






Comemorou-se ontem no Gavião os 35 anos da revolução de abril, de inicio com a cerimónia do astear da bandeira,ao som do Hino nacional interpretado pela banda do Município, seguiu-se depois no Cine teatro Francisco Ventura uma cerimónia de entrega de bolsas de estudo aos estudantes do ensino superior residentes no Concelho.
de seguida foram homenageadas e agraciadas com a medalha de ouro do Município algumas figuras ilustres do nosso Concelho,das quais se destaca Dona Luzia Raposo Provedora da santa Casa da Mesericordia do Gavião durante bastantes anos.
depois de algumas actuações de crianças das escolas de Gavião, seguiu-se o discurso de encerramento do presidente da Câmara Prf.Jorge Martins.

sábado, 25 de abril de 2009

AURORA BOREAL


Mais uma recordação de outrora.


COMENDA, ANOS 30 DO SÉCULO PASSADO : OS MISTÉRIOS E OS MEDOS DA AURORA BOREAL

Já tive a ocasião de colocar aqui, no blogue «Castelo Cernado», um texto sobre o insólito sobrevoo da nossa terra pelo famoso dirigível «Graf Zeppelin». Acontecimento que teve lugar por volta de 1935/1936. Confiando, mais uma vez, nas recordações de minha mãe -uma jovem com quase 87 anos de vida- venho agora falar-vos do dia (ou melhor, da noite) em que a população da Comenda pôde observar –com o alvoroço que se imagina- uma aurora boreal.

Segundo a minha progenitora, tal facto terá acontecido pela mesma época em que ela viu, naturalmente espantada, o voo majestoso do dirigível alemão; ou talvez um pouco mais tarde, lá para finais da década dos 30.

A aurora boreal é um fenómeno natural, de grande espectacularidade visual, observado com uma certa frequência nas regiões próximas do Pólo Norte, mas muito raro noutras latitudes. O mesmo fenómeno ocorre nas regiões polares do sul. Só que aí se lhe dá, como é óbvio, o nome de aurora austral.

Tal fenómeno (só visível de noite) consiste no aparecimento de uma cortina de luz de grande intensidade, semelhante à luminosidade provocada pelo Sol nascente. A gama de cores da aurora boreal é muito variada e pode ir do vermelho ao verde, passando pelo amarelo e por tons esbranquiçados. Esta mancha de cores pode ser raiada ou ondulada. Ou apresentar, até, faixas radiais em volta de um ponto determinado. A aparição deste fenómeno é, quase sempre, acompanhada por forte perturbação do campo geomagnético.

Segundo os cientistas, as auroras boreais formam-se, na sua grande maioria, na ionosfera. E acontecem, segundo eles pensam, quando electrões e protões incidem –aquando de explosões solares- nos átomos de oxigénio e de azoto da alta atmosfera terrestre e os excitam, com a consequente emissão de luz. Confessam ainda os sábios (com uma humildade louvável) que muitos aspectos deste fenómeno lhes são, porém, desconhecidos.

Foi pois esta coisa estranha que foi dada ver à população da Comenda há já uns 70 anos. Escusado será dizer que a impressionante visão de fenómeno celeste tão raro apavorou as pessoas da Comenda, mas também os povos das aldeias, vilas e de algumas cidades deste país, que tiveram a oportunidade de o observar. Segundo a minha mãe, que gosta muito de me falar do Castelo e dos comendenses de tempos idos, as pessoas da nossa terra ficaram tão assustadas que, na noite da aurora boreal, não se deitaram e se passearam pelas ruas da aldeia muito preocupadas, comentando o acontecimento. Tanto mais, que alguns sabichões do burgo puseram a circular o boato de que aquilo que se estava a observar era o prenúncio do fim do mundo.

Não sei se, nessa noite, alguém da terra com mais cultura (um professor ou um médico, por exemplo) pôde elucidar o mistério e tranquilizar algumas pessoas. Sei é que o meu avô paterno (assinante do jornal «O Século») leu no dia seguinte, após a entrega desse matutino, a explicação do fenómeno e pôde, assim, sossegar a família e os vizinhos.



Manuel Monteiro da Silva

25 DE ABRIL SEMPRE





quinta-feira, 23 de abril de 2009

OS ENCHIDOS TRADICIONAIS DA COMENDA






Voltamos ás tradições antigas com mais um artigo do nosso colaborador Manuel Silva.



OS ENCHIDOS DA COMENDA : UMA PRECIOSIDADE QUE DESAPARECEU


A Comenda já foi terra de alguns dos melhores enchidos produzidos no distrito de Portalegre, quiçá no nosso país. Com características gustativas muito próprias, os nossos enchidos –todos de fabrico artesanal- ganharam fama não só na nossa região, mas também em Lisboa e nalgumas cidades e vilas dos arrabaldes da capital. Onde, infelizmente, eram comercializados com a designação vaga e algo enganadora de «carnes da região de Portalegre». E isto é dito, naturalmente, sem desprimor para os produtos confeccionados na cidade de Régio, cuja reputação, neste campo das carnes embutidas, está feita e confirmada.

Convém dizer que os porcos produzidos na nossa região (e aqui estou-me a referir exclusivamente à Comenda e lugares vizinhos, como o Vale da Feiteira e a Ferraria) eram alimentados com produtos tão naturais quanto a lande dos nossos montados, as batatas (geralmente servidas aos animais depois de prévia cozedura), as abóboras, as couves e as chamadas lavagens, que incluíam sempre (ou quase) cereais e afins. De modo que a carne dos suínos criados pela nossa gente ganhava, ao longo do processo de engorda, uma consistência e um sabor francamente incomparáveis.

Os produtores de enchidos da Comenda eram, sobretudo, os comerciantes locais de mercearia, um ou dois salsicheiros que por cá havia e os particulares, que, por vezes, vendiam a esses negociantes os excedentes da sua própria produção. Produção que compreendia, essencialmente, chouriços (mouros ou de carne), linguiças, paios (os famosos lombos guitados) e painhos, cacholeiras, morcelas de assar, morcelas de cozer (estas muitas vezes ensacadas nos próprios buchos dos porcos) e farinheiras.

Não me vou atardar nas técnicas de confecção dessas nossas antigas preciosidades gastronómicas. Até porque, confesso, nada percebo do assunto. Embora tenha assistido, várias vezes, à preparação e ao enchimento desses produtos por várias senhoras da Comenda, que demonstravam, então, um saber e uma agilidade fora do comum. Tal espectáculo foi-me proporcionado em casa de tios, que possuíam na Comenda um negócio de mercearia e uma modesta salsicharia. Sei é que a carne e demais ingredientes (sangue, sal, pimentão, alho, especiarias, etc) eram previamente preparados e separados em função da sua futura utilização.

O chouriço de carne, por exemplo, era confeccionado com alguma da carne mais nobre do animal esquartejado e com muito pouca gordura. Temperado a preceito, segundo as regras da casa e o saber ancestral daquelas que o fabricavam, o chouriço passava depois para o lugar designado no fumeiro, onde permanecia o tempo necessário até estar nas condições ideais para ser colocado no mercado e degustado. Já o chouriço mouro era, basicamente, mais gordo. Lembro-me perfeitamente da sua inigualável sapidez, quando enriquecia as nossas consistentes sopas regionais e o nosso famoso cozido à portuguesa. Nas morcelas, aromatizadas com cominhos, havia que distinguir a de cozer, que muitas vezes enchia o característico bucho (daí o povo também a designar por esse nome, bucho) e a de assar, esta ensacada em tripa fina, de secção idêntica (ou quase) à do chouriço. Esta última e a cacholeira -obra-prima dos nossos desaparecidos charcuteiros- constituíam o pitéu ideal para petiscar a meio da tarde, acompanhadas de copos de vinho de produção local e de fatias do nosso afamado pão caseiro. Nada melhor ! –E já agora, e para finalizar esta lista de produtos que a Comenda já produziu, quero referir o nosso delicioso paio ou lombo enguitado. E referir que, nos idos de 50 (do passado século, obviamente), esta delícia era quase exclusivamente reservada aos ricos da nossa terra. Por causa do preço muito elevado com que ela (a tal delícia) era colocada no comércio. Esses preços pouco populares justificavam-se pelo facto de tal enchido ser confeccionado com o melhor lombo dos suínos e, também, porque o seu enguitamento obrigava as salsicheiras a um trabalho mais cuidado e mais demorado. O gosto do lombo enguitado da Comenda era único, divinal. E capaz de ombrear (senão superar) em qualidade com o melhor que alguma vez se fez, neste país (e não só), em matéria de enchidos.

A propósito da acima referida fama que os nossos enchidos chegaram a ter na capital e terras da chamada cintura industrial de Lisboa, quero ainda dizer o seguinte : o pai do escrevinhador destas linhas fixou-se no Barreiro em finais dos anos 40 do século passado. Aí trabalhou nas Oficinas Gerais dos Caminhos-de-Ferro Portugueses perto de uma década. O ordenado que recebia no final de cada mês era miserável. E ele resolvia o problema vital da sobrevivência, socorrendo-se desta artimanha : como tinha um passe que lhe permitia viajar de borla nos comboios da CP, vinha todos os sábados à Comenda com dois grandes cabazes de verga, que aqui carregava, essencialmente, com enchidos da terra. Produto que depois vendia a uma clientela certa de Lisboa, do Barreiro ou de Alhos Vedros. O famoso Café Gelo (na capital) era um dos clientes certos de meu pai. Visto a clientela selecta desse estabelecimento, por ali se quedavam os tais lombos e os melhores chouriços. E no Barreiro eram clientes do meu progenitor a Cooperativa dos Corticeiros, o Café Lá Vai (propriedade de um alegretense) e, entre outras mais, a conhecida Casa Lagarto. Isto passava-se quando eu tinha 6/7 anos de idade. E sei-o graças aos relatos verbais que o meu falecido pai deixou. A fama gerada pelas nossas carnes embutidas era de tal ordem, que os estabelecimentos citados faziam dessa exclusividade uma das suas apostas comerciais.

Creio que o essencial sobre os enchidos da Comenda está dito. Resta-me lamentar que essa pequena indústria (de características caseiras) não tenha perdurado até aos nossos dias. Porque poderia ter valorizado mais a nossa terra, nestes tempos em que a qualidade daquilo que se come se tornou uma mais valia para quem produz e vende o melhor.

Quero dizer ainda que, apesar de tudo, Portalegre continua a manter a qualidade e a fama dos seus enchidos. Esses produtos estão hoje protegidos pela lei. Só podem beneficiar da designação ‘Enchidos de Portalegre’ aqueles que forem confeccionados com carne de animais de estirpe regional (raça alentejana) e fabricados nos limites dos concelhos do nosso distrito. Os comendenses estão, pois, contemplados com essa benfeitoria.Não haverá por aí alguém com espírito de iniciativa (e também com algum dinheiro) que queira recuperar as receitas do passado e dar continuidade a esta tão interessante tradição ? –A pergunta fica feita.



Manuel Monteiro Silva

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Parque de Merendas da Ribeira da Venda

Hoje vamos iniciar um novo tema de artigos sobre a nossa terra, vamos falar dos equipamentos existentes na nossa freguesia, equipamentos que estão ao serviço da população e ao mesmo tempo contribuem para o desenvolvimento da nossa região, e vamos começar pelo ex-líbris da nossa terra .

(O Homem sonhou este Parque, Deus quis a obra nasceu) são estas palavras que estão inscritas por detrás do busto do Homem que teve este sonho e o idealizou, seu nome, Manuel de Jesus Duarte, Presidente da Junta de Freguesia da Comenda entre 1976 e 1994 eleito pelo Partido Socialista, e cujo busto está erguido no meio do Parque.
O sonho começou a tornar-se realidade a partir do momento em que Manuel Jesus Duarte, mais conhecido cá na terra naquele tempo por Manel Lérias fez o pedido do terreno onde está inserido o Parque, ao proprietário do mesmo, o Dr. Jorge Bastos, dono da herdade Vale do Grou á época, o qual depois de alguma insistência da parte do mentor do projecto lá cedeu o terreno para a criação do espaço, depois com o apoio do presidente da Câmara do Gavião na altura, Jaime Estorninho tambem eleito pelo parttido Socialista, iniciaram-se as obras de implantação do Parque, concluído numa primeira fase em 20-11-1989, como mostra uma inscrição á entrada,entretanto Manuel de Jesus Duarte o grande mentor desta obra, foi acolhido de doença prolongada e viria a falecer em 1994,já não assistindo á inauguração do Parque de Merendas,em 28-05-2000, pelo Ministro do Ambiente da altura, o actual Primeiro Ministro Ego. José Sócrates,inauguração feita depois de uma segunda fase de obras de remodelação do parque iniciadas em 1999, de novo pela Câmara Municipal, já com o actual presidente Prof. Jorge Martins á frente dos destinos do Município de Gavião, eleito pelo Partido Socialista,em 1997 e na Junta de Freguesia de Comenda estava na altura o Sr. Manuel Medeiros Morais também eleito pelo partido Socialista, e que esteve á frente do executivo da Junta até 2005.
Esta segunda fase de obras foi muito importante já que dotou o parque de novas infraestruturas tais como, o restaurante, a piscina para crianças, o fecho da ribeira em betão transformando-a numa piscina natural,o parque infantil, e as mesas em madeira para os piqueniques.
Ao longo destes anos passados tem a Junta de Freguesia de Comenda feito a gestão do Parque e a sua manutenção, o actual executivo da Junta de Freguesia eleito em 2005 pela CDU, lamentavelmente entregou em 2008, a gestão do Parque de Merendas á Câmara Municipal do Gavião com o argumento de que não era viável financeiramente, e depois de este estar completamente abandonado durante um certo período do ano de 2008, o Parque de Merendas,( ex-líbris da Freguesia), pela primeira vez desde a sua criação deixava de ser gerido pela Junta de Freguesia da Comenda.

A Câmara tomou conta do Parque em Maio de 2008, de então para cá tem se verificado obras de conservação e beneficiação das quais se realça o tecto do restaurante, feito com acordo entre a Câmara e os arrendatários que estão a explorar o mesmo, a limpeza das árvores e da ribeira.
Hoje o Parque de Merendas da Ribeira da Venda é o cartão de visitas da nossa terra, onde qualquer pessoa que nos visita pode tomar uma refeição com qualidade e conforto no restaurante do Parque confeccionadas pela Raquel e servidas pelo irmão Pedro Tocha,os actuais arrendatários, ou fazer um piquenique com a família, confeccionando a sua própria comida nos grelhadores públicos existentes, e depois saboreando-a nas diversas mesas espalhadas pelo Parque, isto enquanto a criançada se vai deliciando com a piscina( só para crianças ), e o parque infantil.
O Amigo Manel Lérias está sempre presente neste cartão de visitas e o sonho que ele concretizou um dia, mantêm-se vivo.

Visitem-nos, todos serão bem vindos, e verão que hão-de querer voltar.


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ADIC Futsal






Foi um fim de semana alucinante este que passou para a equipa de futsal do ADIC, ao participar no torneio 24 horas no Gavião, com jogos na Sexta –Feira ao fim da tarde e depois ao longo da noite e madrugada para Sábado, terminando a sua participação ao fim da tarde de Sábado com uma derrota com a equipa que viria a ganhar o torneio, o café do Chico Tiburçio.
Foram duas vitórias duas derrotas e um empate, ficaram em 8º lugar entre 16 equipas, o que não é nada mau para quem não pregou olho e tinha de estar em Portalegre ás 18.00 horas de Sábado para disputar a eliminatória da taça de futsal da Associação de Futebol de Portalegre, a qual viriam a perder por 7-1 com o Portalegrense.
Resta a consolação de ter sido um fim de semana cheio de emoção e desporto bem animado e em que a nossa equipa participou em todas as frentes, e deu o seu melhor, e quando assim é não se pode pedir mais.
Parabéns ADIC , segue-se os torneios internos cá estaremos para dar mais noticias.

sábado, 18 de abril de 2009

Histórias Reais de Antigamente



Hoje vamos contar uma história antiga baseada em factos reais, que aconteceu na Comenda de outrora.





QUANDO O ZEPPELIN SOBREVOOU A COMENDA


Da minha mãe, que já vai a caminho dos 87 anos de idade, e de uma sua irmã, agora com 84 primaveras, ambas comendenses, ouvi eu várias vezes o relato de algo que muito as impressionou na sua meninice : a narração do sobrevoo de Castelo Cernado por um gigantesco dirigível alemão construído pela firma do conde Zeppelin. Esse acontecimento foi observado pelas supracitadas anciãs (e concerteza por muitas outras pessoas da Comenda ainda vivas) do quintal da moradia familiar, situada na Rua do Monte Novo. E teve lugar, muito provavelmente, em 1935 ou 1936, já que minha progenitora, nascida em 1923, afirma que andaria então pelos 12 ou 13 anitos.

Cronologicamente a coisa bate certo, já que o apogeu dos dirigíveis coincide com esse período da História. Concorda no tempo com essa época particularmente sombria para a Europa, visto Adolf Hitler ter acedido -em 1933- ao poder na Alemanha e representar já, inquestionavelmente, um perigo letal para as nações e para os povos do chamado Velho Mundo.

Por essa altura, a firma Luftschiffbau Zeppelin Gmbh, pioneira nas áreas da concepção, construção e venda de dirigíveis de estrutura rígida, já havia acumulado êxitos com a exploração comercial (pela transportadora DELAG) dos seus fenomenais charutos voadores. Um desses engenhos, o famoso LZ-127 «Graf Zeppelin», efectuara em 1929 uma triunfal volta ao Mundo e passara a cruzar regularmente o Atlântico com uma clientela endinheirada e ávida de emoções fortes. Este dirigível (que media cerca de 237 m de comprimento e podia conter, no seu bojo, qualquer coisa como 110 000 m3 de hidrogénio) ligou Friedrichshafen (Alemanha) a Lakehurst (perto de Nova Iorque) e depois ao Brasil. Durante os seus 9 anos de vida operacional, o «Graf» percorreu 1 700 000 km em 17 200 horas, transportando mais de 13 000 passageiros. E tudo isto sem problemas realmente dignos de menção.

Em 1936, um dirigível de ainda maiores dimensões, o LZ-130 «Hindenburg» (com 245 m de longitude, um total de 42 toneladas, 190 000 m3 de gás, cerca de 70 passageiros) foi colocado na rota da América do norte pela sucessora da DELAG, a companhia D.Z.R.. Apesar da sua grandeza e do seu luxo foi este autêntico paquete do ar quem ditou o fim da navegação aerostática dirigida. Já que, no fatídico dia 6 de Maio de 1937, o «Hindenburg» sofreu um acidente medonho à sua chegada aos Estados Unidos. Por uma razão, jamais elucidada, um incêndio declarou-se a bordo do LZ-130, envolvendo-o em chamas. Devido ao facto do mastodôntico dirigível se encontrar já perto do solo, só morreram 12 passageiros e 19 membros de equipagem, entre os quais o capitão Ernst Lehmann. Mas isso foi suficiente para considerar perigosos os engenhos utilizando como fluido de sustentação o hidrogénio, um gás extremamente inflamável.

Mas voltemos à vaca fria, quer dizer ao tal charuto prateado que, inesperadamente, sobrevoou a Comenda em data indeterminada de meados da década dos 30. Considerando as informações disponíveis, é muito provável que se tivesse tratado do LZ-127 «Graf Zeppelin». Isto porque, nessa altura, já essa aeronave se encontrar afectada à linha da América do sul, cuja rota a fazia sobrevoar a península Ibérica; contrariamente ao «Hindenburg» que, nas suas viagens para os states, utilizava uma trajectória mais setentrional.

Foi no fim desse memorável e incerto dia que o enorme aeróstato pairou sobre a nossa aldeia ou que, pelo menos, a sobrevoou a velocidade muito reduzida. Voava a uma altura relativamente baixa para parecer, a quem o viu da Comenda velha, ser «do tamanho de um camião». A minha mãe e a minha tia (que já citei) foram alertadas da sua presença sobre a nossa terra pelo ronronar dos seus motores, que então se ouviram nitidamente. O que não é de admirar, caso se confirme a baixa altura a que se deslocava o insólito charuto voador. É que o «Graf Zeppelin» era movido por cinco poderosos motores diesel Maybach (bastante ruidosos), de 2 650 cavalos de potência global. O dirigível terá abandonado o espaço aéreo da freguesia na direcção do sudoeste, facto que favoriza a tese do «Graf Zeppelin» na sua rota brasileira em desfavor de outra qualquer hipótese. Inútil será dizer, que a visita inesperada do Conde Zeppelin foi conversa obrigatória dos comendenses durante muito tempo. Até que a recordação deste insólito acontecimento se esvaneceu com o tempo, que tudo teima em apagar.

O autor destas linhas agradece antecipadamente a todas as pessoas que possam ter recolhido testemunhos sobre este assunto, o favor de enviar essa informação para o blog Castelo Cernado.


Manuel Monteiro Silva

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O Cinema na Comenda


LARGO Dr.CEREIJEIRA














MOEDAS DE 10 CENTAVOS 20 CENTAVOS 50 CENTAVOS E 1 ESCUDO








ENTRADA PARA O SALÃO FLORES












FARMÁCIA MARGARIDO POR CIMA ERA O SALÃO FLORES






Mais uma recordação de outros tempos.


VAGAS RECORDAÇÕES DO CINEMA NA COMENDA (ANOS 40/50 DO SÉCULO XX)

A primeira vez que eu vi cinema na minha vida foi aqui no Castelo. Os filmes -já que foi uma selecção de documentários - que me abriu os olhos e o espírito para a genial invenção dos irmãos Lumière eram de natureza variada, mas eu só me lembro, e muito vagamente, do tema de um deles: a pesca do bacalhau, praticada nos longínquos e frígidos mares da Terra Nova e da Gronelândia pelos nossos indómitos lobos do mar.

Mais de meio século após esse evento que muito me marcou, sou incapaz de colocar um título no referido documentário (e nos outros), mas recordo perfeitamente o tom voluntariamente enfático do comentador da tal fita sobre os bacalhoeiros e a impressionante beleza –a preto e branco dos lugres e da sua intrépida navegação por entre montanhas de gelo flutuante.

O ecrã onde foi exibido esse tal espectáculo inédito para mim, como já referi foi a fachada branca de uma casa sita no Largo Dr. Cerejeira. Por essa época, os comendenses traziam de casa os assentos (bancos e cadeiras) e instalavam-nos em redor da tosca máquina de projecção do mestre André, o senhor que vinha regularmente á nossa terra com esse tão desejado espectáculo. Nessas sessões de cinema ao ar livre não se podiam, naturalmente, vender bilhetes. Assim, para tirar algum benefício do seu labor, o mestre André interrompia o espectáculo uma ou duas vezes para proceder ao necessário peditório junto dos presentes. E reclamava, falsamente indignado, no final dos mesmos, que o povo da Comenda só o obsequiava com matateus.

Abro aqui um parêntese, para esclarecer o seguinte : esse tempo era uma época de vacas magras. As pessoas trabalhavam muito a troco de salários baixíssimos e o dinheiro era coisa rara nos seus bolsos. Assim, nessas tais sessões de cinema ao ar livre, a gente da nossa terra (como a das outras, presumo eu) oferecia ao mestre André as moedas de valor facial mais baixo. Moedas de 1 e de 2 tostões, que, por serem de cobre, se faziam notar pela sua cor escura, em oposição às moedas de 50 centavos, de 1 escudo e outras mais valiosas, que, por serem niqueladas ou prateadas, eram designadas moedas brancas. O facto do mestre André chamar matateus áquilo que recebia, tem a ver com Sebastião Lucas da Fonseca, um ponta-de-lança belenense vindo de Moçambique. Alcunhado Matateu, esse que foi, porventura, um dos mais populares jogadores do futebol português dos anos 50, era um atleta de cor negra. Daí a alusão do projeccionista. Alusão que, creio eu, nada tinha de racista ou de discriminatório, já que o admirado Matateu recebia, nesse tempo, um carinho por parte dos portugueses brancos realmente extraordinário, fenómeno que só viria a repetir-se com o seu conterrâneo Eusébio.

Depois dessa exibição de filmes ao ar livre, que, por óbvias razões, só se fazia durante a estação estival, a Comenda continuou a ver cinema. Mas, desde então, em condições menos toscas. Eu recordo-me, por exemplo, de assistir à projecção de filmes num salão de baile, situado por cima da actual farmácia Margarido, e num pátio anexo, cuja entrada (de um e de outro recinto) se fazia pelo segmento Oeste da agora denominada rua Dr. Freitas Martins. Hoje sou, infelizmente, incapaz de citar o título dos filmes que aí vi. Recordo-me, no entanto, que também ali, nos espaços referidos, acorria muita gente fascinada pela magia dos bonecos em movimento. Presumo que, nesse tempo, as fitas propostas aos comendenses fossem de cariz popular : cinema de aventuras, dramas choradinhos, comédias hilariantes. E que alguns desses filmes fossem de produção nacional. Mas, francamente, não sei, já não me lembro.

(«Quem não tem passado, não tem futuro»)

Sobre este assunto, quedo-me por aqui. Propondo, no entanto, aos leitores habituais ou eventuais deste blogue o seguinte : «Castelo Cernado» quer ser um espaço aberto e interactivo, no qual podem e devem intervir todos os comendenses que gostem da sua terra e que manifestem um são interesse pelo seu presente e pelo seu futuro. Mas também por todos aqueles que queiram ajudar a divulgar as coisas, mais ou menos longínquas, do seu passado e das suas tradições. Para que a memória dessas coisas (mais importantes do que se pensa) não se esfume totalmente. Assim, desafiamos todos aqueles que nos lêem a completar os textos que por aqui vamos apresentando ou, até, a corrigir alguma coisa errada que, na nossa boa fé, aqui tenhamos colocando.


MANUEL MONTEIROS SILVA

Ginástica Aérobica

Realizou-se ontem no Centro Comunitário e Paroquial da Comenda a primeira sessão de ginástica aérobica, promovida pela ADIC, este inicio teve a participação de cerca de 24 pessoas,o que é óptimo.
Iniciativas destas são sempre benvindas,oportunamente darei mais pormenores.

Fontes na Comenda

POTE EMPEDRADO DE NISA E CANTÂROS













FONTE VELHA














FONTE DO AZINHAL














FONTE DO VALE DE GROU














FONTE NOVA











hoje vamos falar de fontes antigas na Comenda,mais um trabalho do nosso Amigo Manuel Silva.



AS FONTES DE MERGULHO DA COMENDA

As fontes de mergulho são, como provavelmente toda a gente sabe, aqueles olhos de água que brotam naturalmente à superfície da terra e dos quais se recolhia o precioso líquido directamente –e por mergulho, daí o seu curioso nome- com a vasilha que o transportaria até casa : um cântaro, uma bilha, um caldeiro, etc. Essas fontes foram, num passado já longínquo, os únicos pontos de abastecimento de água a que tiveram acesso as gentes do Castelo e as populações de aldeias como a nossa.

Depois dessas nascentes, precariamente protegidas, apareceram as fontes de bicas, que, como é óbvio, constituíram um avanço gigantesco em termos de comodidade e de higiene para as populações rurais. A esse propósito, eu ainda me recordo (com a nostalgia própria daqueles que já entraram no inverno da vida) dos ranchos de raparigas e de mulheres da Comenda que se juntavam na chamada Fonte Nova com os seus potes e cântaros (geralmente de Nisa), prontos para serem atestados com água. As necessidades da vida quotidiana obrigavam muitas vezes essas mulheres a efectuar várias e árduas idas à fonte para abastecerem os seus lares. E foi assim até que, finalmente, apareceu a água canalizada, supremo luxo, que mudou radicalmente a vida quotidiana das pessoas da nossa terra e não só.

O autor destas modestas linhas -que vai nos seus 64 anos de vida- já é do tempo das fontes de bicas (a Fonte Nova foi inaugurada, como o atesta uma lápide lá colocada, no ano de 1915), mas ainda se recorda de certas fontes de mergulho, onde algumas pessoas do Castelo se abasteciam em água para uso corrente de suas casas. Isto nos anos 40 e 50 da passada centúria.

Lembro-me bem de algumas dessas fontes superficiais, que, por acaso, ainda hoje são visíveis e podem testemunhar da rude realidade de tempos idos. Convém frisar que, na época forte da sua utilização, os campos ainda não haviam recebido as doses maciças de adubos e pesticidas que, como todos sabemos, acabaram por envenenar os solos e contaminar as reservas freáticas, comprometendo (por muito tempo) a utilização segura das fontes às quais aqui fazemos alusão. Prosseguindo, diremos que uma dessas fontes, a chamada Fonte Velha, se situa em pleno campo, no prolongamento da rua que tomou o seu nome, a escassas dezenas de metros de distância do templo da comunidade adventista Uma outra fonte desse tipo, a do Azinhal, está localizada também a sul da nossa aldeia, na chamada rua da Poça, nas proximidades da ETAR da Comenda. Segundo informações que me foram transmitidas por conterrâneos mais velhos e mais conhecedores do assunto, existem várias outras fontes de mergulho perto da nossa aldeia. Como, por exemplo, a Fonte do Vale das Pedras, acessível pelo caminho das Quintas; como as duas fontes do Braçal (oferecendo uma delas águas ferraginosas) ; ou como as fontes (essas mais distantes) do Vale da Rabaça. Agora praticamente todas elas sem grande utilidade e votadas ao abandono.
O cachopo curioso que eu era nesses tempos, arrepiava-se de ver, amiúde, nessas fontes de mergulho salamandras, tritões e rãs, cuja presença nesses lugares ele achava, na sua santa ignorância, incompatível com a higiene, com a salubridade do líquido vital. É que ele ainda não sabia que esses batráquios (nada nojentos, apesar da sua rebarbativa aparência) ajudavam a purificar a água dessas preciosas nascentes, da qual eles eliminavam sistematicamente moscas, mosquitos e outros insectos, esses sim extremamente perigosos para a saúde pública.

Aqui fica, pois, o testemunho de alguém que gostaria que certos aspectos da vida quotidiana dos comendenses de outrora não ficassem mergulhados no esquecimento total, engendrado pelo nosso desinteresse e/ou pela nossa ignorância das coisas do passado. Aqui fica o testemunho de alguém que não gosta que certos aspectos da vida dos nossos pais e avós continuem enterrados numa espécie de olvido envergonhado que, finalmente, até nos descaracteriza enquanto pessoas e enquanto povo.

E já agora, deixem-me soltar um desabafo : tendo a Comenda tanta gente com canudos universitários, estou pasmado com o facto de nenhum desses seus filhos mais cultos ter ainda tido a ideia e a vontade de se lançar na escrita de um estudo monográfico sério sobre a sua terra ! –Como têm feito os filhos de praticamente todas aldeias aqui em redor. As populações de Alagoa e dos Fortios, por exemplo, acabam de ver, com muito orgulho, as monografias das suas terras editadas e divulgadas. Aqui fica, pois, lançado o desafio aos universitários comendenses...



Manuel Monteiro Silva

terça-feira, 14 de abril de 2009

Comenda sua História eTradições







Vamos iniciar hoje uma serie de posts sobre a história e tradições da nossa terra, algumas já perdidas, da autoria do nosso colaborador e amigo Manuel Silva.
Começamos pelo historial:




COMENDA" NOSSA TERRA

Castelo Cernado, sede da freguesia de Comenda, é uma aldeia do Alto Alentejo integrada no concelho de Gavião, vila da qual dista cerca de 17 km. A igual distância da nossa terra se situa Nisa e Crato, vilas com as quais os comendenses também partilham alguns aspectos do seu passado histórico e certos dos seus usos e das suas tradições.

Rodeada por imensos montados e por vastos eucaliptais, a Comenda e os comendenses viveram muito tempo da exploração dessas riquezas florestais, tendo os seus filhos consagrado durante décadas o essencial do seu saber da sua actividade profissional às tiradas de cortiça e ao fabrico de carvão vegetal. Além de também terem ganho o seu sustento no amanho de hortas familiares, que, graças à reconhecida riqueza das nossas reservas aquíferas, aqui produzem de tudo um pouco: frutos, principalmente citrinos, feijão, olival, milho, vegetais e legumes de toda a espécie.

Com o decorrer dos tempos mudaram os hábitos dos comendenses. E, por ter falhado, em tempo próprio, a implantação de unidades fabris susceptíveis de fixar a população ao seu torrão natal, a nossa aldeia como tantas localidades do vasto e esquecido Alentejo regrediu e foi sendo abandonado por muita da sua gente, em proveito de Lisboa e de outras cidades e vilas da rica cintura industrial da capital portuguesa.

Mas a gente do Castelo, do Vale da Feiteira, da Ferraria e de outros lugares da freguesia de Comenda como Vale de Junco ou Vale de São João raramente esquece a abençoada terra que a viu nascer. E, em ocasiões especiais que marcam a vida das pessoas, cá estão esses nossos conterrâneos de volta ao berço, para festejar o Ano Novo, celebrar a Páscoa, passar as férias grandes, assistir à festa anual votada ao culto de Nossa Senhora das Necessidades ou passar o Natal na paz que lhes proporciona o sossego da região e o aconchego da casinha familiar deixada em herança pelos pais. É também nessas ocasiões que os ausentes matam saudades dos sabores da sua infância, degustando os sápitos e tradicionais pratos da nossa região, tais como o sarapatel, a lebre com couves, as migas, as sopas de peixe do rio ou o arroz doce.

A freguesia de Comenda ocupa uma área geográfica que ronda os 90 km. O que significa que, para uma população que já não ultrapassa os 1.000 habitantes permanentes, não é o espaço que lhes falta. A charneca imensa e quase deserta que nos rodeia não constitui um meio hostil. Antes pelo contrário uma charneca em flor, como lhe chamou Horácio Nogueira, antigo e estimado pároco de Comenda, nos dois livros que consagrou à nossa terra. Na Primavera, quando florescem aos milhões as estevas, os tojos, as giestas e uma multitude de outras espécies da flora autóctone, a natureza empresta à campina formas, cores e odores tão agradáveis quanto inesperados. Sobretudo para aqueles que, habitualmente, só nos visitam durante o Estio e se maravilham perante a espantosa metamorfose operada, ciclicamente, por madre natura.

Uma infinidade de fontes e ribeiras de cristalinas águas, manifestam-se por essa mesma ocasião, ou ao longo do ano, espalhando a sua benfazeja frescura por toda a parte. Disso são exemplo a ribeira da Venda -que dispõe, agora de um aprazível e apetecível parque de lazer e a inesgotável fonte do Vale do Grou, que goza na freguesia, e não só, da justa reputação que lhe concedem as suas águas, consideradas das melhores de todo este rincão do norte alentejano. É também na Primavera que a passarada e aves de grande porte como a cegonha branca e várias espécies de garças por aqui nidificam. E, agora, nesta época de visível mutação climatérica, por cá se vão deixando ficar o ano inteiro, renunciando instintivamente à aventura da migração.

O povo da Comenda é de um natural simples e afável. É, em suma, gente representativa deste Alentejo profundo, que continua a fazer jus a valores como o trabalho, a hospitalidade e o amor à sua região. À região do Alentejo que aqui toma nome, já que o maior curso de água de toda a península Ibérica o rio Tejo corre a escassos quilómetros ao norte da nossa aldeia, servindo de fronteira natural entre o concelho de Gavião e a vizinha e amiga Beira Baixa.

Manuel Monteiro Silva